Processo

O que motiva minha pesquisa é investigar as formas que buscamos de sustentar aquilo que nos conecta. Por meio do crochê, do bordado e da costura manual, em cada trabalho têxtil, observo as relações humanas em suas fragilidades, rupturas e possibilidades de reparação, assim, compreendo o têxtil como um território onde matéria, memória e tempo se entrelaçam.

"Como habitamos aquilo que nos afetou antes mesmo de conseguirmos nomeá-lo?" Christian Dunker
Esta pergunta despertou minha atenção para a experiência vivida e para aquilo que nos afeta no cotidiano.
Entre um trabalho e outro percebo que minha pesquisa vem ganhando mais consistência. Já não busca apenas representar as relações humanas, mas tornar visível a complexidade dos afetos quando eles ainda estão em processo de encontrar uma forma.
Percebo que as relações não são feitas apenas de conexões harmoniosas; podem ser constituídas de tensões, sobreposições, nós e zonas onde já não sabemos distinguir uma camada da outra.
Ao recorrer à arte como um modo de investigação — e talvez também de escuta — surgiu outra pergunta:
Como os afetos adquirem forma?
Talvez pela forma de um nó, de uma camada, de uma trama. Às vezes de um vazio ou de um fio que insiste em permanecer ligado a outro.


Esta pesquisa surgiu a partir da sensação de não pertencer. A dor de habitar uma casa que resistia em ser minha — ou, talvez, a minha própria resistência em habitá-la. Demorei quase dois anos para acolher esse lar dentro de mim. Foi mais uma mudança: entre tantas outras, mais um novo que se apresentou carregado de mistérios e sem que eu soubesse como adentrá-lo.
Habitar não é apenas ocupar um espaço. Não se trata apenas de um problema espacial. Conforme o filósofo Emanuele Coccia, morar não significa apenas estar cercado por qualquer coisa, nem ocupar determinada área no espaço terrestre. Significa criar um vínculo tão intenso com certas coisas e certas pessoas que a felicidade e a nossa respiração se tornam inseparáveis. Uma casa é uma intensidade que transforma nosso modo de ser e estar — além de todo o resto que faz parte de sua esfera mágica. A vida das plantas, (2018)
Coccia aprofunda essa noção também em Filosofia da Casa: “A casa começa com coisas [...] Nunca temos uma relação com o espaço, ou com paredes, temos uma relação com objetos. Nós apenas habitamos as coisas.” Emanuele Coccia, Filosofia da Casa. O espaço doméstico e a felicidade, (2021)
Essa reflexão vai ao encontro da minha experiência e do meu modo de viver. Habitar, para mim, é aprender a escutar o silêncio das paredes, cultivar rituais que tornam o cotidiano habitável e bordar memórias no tempo presente. É consentir, aos poucos, que a casa também me habite — e escrever nas suas superfícies, não com palavras, mas por meio de objetos, bordados e pequenos gestos que carregam minha história até aqui.





Sustentar-se é criar raízes
Sustentar-se é, antes de tudo, criar vínculos com aquilo que nos antecede. O bordado manual, os fios soltos e as camadas de tecido me fazem reviver memórias e gestos de cuidado que foram determinantes na minha vida. O meu fazer artístico não é apenas processo, mas caminho: um modo de honrar a ancestralidade, criar raízes próprias e sustentar a escolha de permanecer.


Os fios me conectam ao que há de mais essencial no fazer. Antes de iniciar cada trabalho, peço licença ao conjunto de materiais, ferramentas e gestos que me acompanham no processo. É nesse tempo do durante que me percebo absorta nas nuances, na força dos tons vermelhos e nas texturas que se deixam construir. O fazer têxtil torna-se, assim, um campo de escuta, onde o corpo sente antes de explicar.